terça-feira, 6 de janeiro de 2009

ESCREVER

Escrever muitas vezes é um modo de tentar compreender(-se). Mas quando este compreender ultrapassa nossa compreensão humana, então escrever(-se) é expor este ultrapassar da consciência. Queria que minha vida fosse tão colada ao contorno das palavras que nada mais seria preciso dizer. No entanto, sempre há esta coisa viscosa, escorregadia, entre o que vivemos e o que se escreve. Queria ficar mudo, tranquilo no meu canto, não dizer palavra que fosse. Mas como conseguir calar se há tanta coisa se dizendo em mim, falando mais do que consigo ouvir? Escrever, que suplício pode ser, mas também que alívio dizer-se assim breve e reto. Falar de tudo isso que não compreendo, remendar frases e fazê-las valer ao menos o sentido de um instante. Apagar-se quando tudo o mais reverbera, e não haver nada mais que uma infinita espera recontando os segundos até que seja o dia seguinte. O dia seguinte já é. Escrevo o dia seguinte com as tintas da aurora. Depois paro. Espero que todos os segundos se façam no vazio da hora. É bom mergulhar assim desatento no agora. Escrever o quê? O nada? O nunca? Desescrever é a melhor política do sentido.

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