quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
SOBRE AS FOMES DO CORPO I
Nada a declarar, por enquanto. Estou a pensar nisto faz uns dias. Mas não consigo escrever. Está dito o não dito.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
ESCREVER
Escrever muitas vezes é um modo de tentar compreender(-se). Mas quando este compreender ultrapassa nossa compreensão humana, então escrever(-se) é expor este ultrapassar da consciência. Queria que minha vida fosse tão colada ao contorno das palavras que nada mais seria preciso dizer. No entanto, sempre há esta coisa viscosa, escorregadia, entre o que vivemos e o que se escreve. Queria ficar mudo, tranquilo no meu canto, não dizer palavra que fosse. Mas como conseguir calar se há tanta coisa se dizendo em mim, falando mais do que consigo ouvir? Escrever, que suplício pode ser, mas também que alívio dizer-se assim breve e reto. Falar de tudo isso que não compreendo, remendar frases e fazê-las valer ao menos o sentido de um instante. Apagar-se quando tudo o mais reverbera, e não haver nada mais que uma infinita espera recontando os segundos até que seja o dia seguinte. O dia seguinte já é. Escrevo o dia seguinte com as tintas da aurora. Depois paro. Espero que todos os segundos se façam no vazio da hora. É bom mergulhar assim desatento no agora. Escrever o quê? O nada? O nunca? Desescrever é a melhor política do sentido.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
POESIA MUDA
O poeta não pede.
Implora.
O poeta não vibra.
Cala.
Estranho vício
de ser hóspede
do silêncio.
Azul e branco
faço do meu ofício
essa sede de luto
essa espiral do tempo.
Sei que o poeta implora.
Sei que o poeta cala.
Atravessando a ponte
vejo uma sombra do tempo
todo navio soçobra, um dia
eu penso.
Eco da solidão
E o poeta dorme
alucinado hóspede
do silêncio.
O poeta nada fala
Apenas
FITA.
Implora.
O poeta não vibra.
Cala.
Estranho vício
de ser hóspede
do silêncio.
Azul e branco
faço do meu ofício
essa sede de luto
essa espiral do tempo.
Sei que o poeta implora.
Sei que o poeta cala.
Atravessando a ponte
vejo uma sombra do tempo
todo navio soçobra, um dia
eu penso.
Eco da solidão
E o poeta dorme
alucinado hóspede
do silêncio.
O poeta nada fala
Apenas
FITA.
domingo, 23 de novembro de 2008
COMO UM SUSTO
Domingo veio como um susto. Os dias passam. A chuva continua. Nada lento, embora eu esteja há tempos meio mumificado, paralisado mesmo, quero dizer. Domingo veio como outros tantos vieram. Eu estive dentro dele vinte e quatro horas quase. Daqui a pouco, domingo terá sido, como tantos outros dias que se foram da fraca memória que tenho dos dias. Agora tenho azia, não sei o porquê. Certamente comi coisas que não devia. Mas a vida é isso, uma cotidiana azia de vez em quando não faz mal a ninguém. Continuarei costurando palavras com a linha do pensamento, continuarei assim até o deus dará, não importa. Não há fio da memória que não se invente, mesmo que débil imagem de algo que nunca será. Ou terá sido sem nunca ter sido? Sim, porque podemos inventar tanto a realidade que só por isso ela já é, mesmo não sendo. Ai, que eu cá já me perco em mim mesmo, ai que coisa estéril e tola e inútil dizer tudo isso que tenho dito, ai, meu deus, que tortura esse vício que é o pensamento. Depois disso, só me resta calar. Ficar assim, mudo, estreito, à espera de que se vá a angústia.
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
PARA OS DIAS QUE VIRÃO
Hoje já é sábado. Amanhã será domingo. Constatar o óbvio. Emile Cioran: "A única função do amor é acabar com o tédio de nossas tardes dominicais." Hoje faz chuva aqui em Campinas. Tentei ler e escrever, mas não consegui. Passei o dia vagueando, feito onda de mar. Acho tão difícil viver. Mas tenho que fazer coisas, produzir, tenho compromissos, prazos. Meu deus! Que coisa mais tediosa isso de sempre haver um depois. Tomo remédios para acordar, para dormir, e mesmo assim me bate o tédio. Acho que deviam inventar logo algo superpotente, uma coisa assim feito uma pílula da cintilância (isso é coisa de Hilda), que a gente tomava e ia ficar saltitando o dia todo como uma criança implume. Acontece que se houvesse uma pílula dessas eu ia querer logo tomar umas vinte, para criar asas e sair logo voando. Hoje fiquei sozinho por algumas horas, meus pais saíram, ficamos eu e a cachorra Pitucha, ela dormitando no tapetinho que tenho ao lado da cama, eu fazendo o que nem sei. Como será o depois do depois? Estes dias que virão serão de chuva, aquela chuvinha fina e interminável, como no "Livro de desassossego", do Bernardo Soares - Fernando Pessoa? Quando eu morava em Floripa, nesta época do ano sempre chovia muito, e ficava aquela coisa cinzenta e molhada. Escrevi um poema lindo num dia assim, mas tenho preguiça para transcrever agora. E depois? E os amanhãs? Como serão? Talvez eu mergulhe no tédio justamente por isso, por saber que o amanhã me pertence como um presente embrulhado que pode ser coisa de troiano.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
COISAS DA VIDA
Mando o poema-música do "pássaro que fui" para Eduardo Chaffe, de Pelotas, amigo da Clarissa. Ainda não o conheço, só nos falamos por e-mail. Ele é antiquário. Fiquei curioso para ver as coisas que ele tem em sua loja. Eduardo me disse que voltou a cantar, por isso lhe enviei o poema-música, que está em minha peça de teatro, chamada "Eu sou o Senhor do Tempo". O poema marca o momento da morte-suicídio do Senhor do Tempo, logo no início da peça. O personagem dá um tiro na têmpora, depois ele "vira tigre" (o ator faz um movimento como se ele estivesse atacando uma câmera de filmar, e vai se metamorfoseando), por fim vira pássaro quando amanhece. A música diz: "O pássaro que fui / canta em bem-te-vi". E o personagem renasce pássaro. Falo aqui coisas e coisas que nem sei. O bem-te-vi é o pássaro cujo canto mais me impressiona, desde criança ouvia seu canto, no Paraná, no sítio de meus avós maternos. Escrevi alguns outros poemas pros pássaros. Acho que nutro por eles uma inveja por ter nascido um ser humano amarrado a um corpo. Por fim, são estas as minhas coisas da vida. Ah, ia me esquecendo. Enfim, dentro de algumas semanas, deixarei de ser inédito. Agora só falta aprovar a capa de dois livros meus, o "Lírica impura III" e o "Diário de um P.M.D.", e esperar que eles sejam impressos. Eles sairão pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores, do Rio de Janeiro. E já estou pensando em publicar outros livros, logo em seguida, para aproveitar a onda. Tenho dito.
terça-feira, 11 de novembro de 2008
FICO PENSANDO
Escrevi um texto que depois perdi. Pois bem, aí vou eu de novo. Fico pensando nisto de ser inédito até hoje, aos 41 anos. Escrevo há mais de 20. Primeiro coisas sem importância, confissões, exercícios de escrever. Ao longo dos anos fui relendo tudo, e rasgando e jogando no lixo tudo o que não gostava. Falando nisto, de tempos em tempos rasgo coisas, e já faz algum tempo que não limpo minhas gavetas. Poesia, então, é uma coisa incomprensível. Ou o poema me vem pronto, ou quase pronto, ou senão fica anos na geladeira. Escrevo muitos, depois vou rasgando, cortando etc. Me lembro de um poema que era grande, mas acabou se reduzindo a dois versos: "Construtor de mim / em ruínas me faço". Mas porque insisto em escrever, se isto não me dá dinheiro para sobreviver? Por que fico batendo nesta mesma tecla, dizendo que sou um ótimo escritor, mas continuo inédito? Não gosto deste papel de vítima, por isso resolvi publicar minhas coisas, na internet e em livros. Claro que vou pagar a edição de meus livros, pois é dificílimo conseguir editora que publique. Poesia, então, é quase impossível. Por que insisto (repito), numa coisa que não me dá nenhuma segurança? Clarice Lispector, certa vez, numa entrevista em que o repórter lhe perguntou porque ela escrevia, respondeu: "Por que o senhor toma água?". Esta talvez seja a melhor forma de dizer que a literatura é essencial ao escritor, é seu ar, sua água, sua comida. Pra mim, não foi sempre assim, demorou, mas hoje posso falar que escrever me insere no mundo e sustenta minha vida. Cansei de vegetar, não viver pleno, cansei de ser inédito, quero me inscrever num destino mais vasto.
Assinar:
Comentários (Atom)