domingo, 23 de novembro de 2008

COMO UM SUSTO

Domingo veio como um susto. Os dias passam. A chuva continua. Nada lento, embora eu esteja há tempos meio mumificado, paralisado mesmo, quero dizer. Domingo veio como outros tantos vieram. Eu estive dentro dele vinte e quatro horas quase. Daqui a pouco, domingo terá sido, como tantos outros dias que se foram da fraca memória que tenho dos dias. Agora tenho azia, não sei o porquê. Certamente comi coisas que não devia. Mas a vida é isso, uma cotidiana azia de vez em quando não faz mal a ninguém. Continuarei costurando palavras com a linha do pensamento, continuarei assim até o deus dará, não importa. Não há fio da memória que não se invente, mesmo que débil imagem de algo que nunca será. Ou terá sido sem nunca ter sido? Sim, porque podemos inventar tanto a realidade que só por isso ela já é, mesmo não sendo. Ai, que eu cá já me perco em mim mesmo, ai que coisa estéril e tola e inútil dizer tudo isso que tenho dito, ai, meu deus, que tortura esse vício que é o pensamento. Depois disso, só me resta calar. Ficar assim, mudo, estreito, à espera de que se vá a angústia.

2 comentários:

Mônica disse...

Esses dias na Bahia foram de muitos tecidos. Fios intermináveis de memórias quase mortas e um sopro de vida, uma esperança, de repente, de vibrar, roçando-me as pernas como um cãozinho. Na volta, vontade de vadiar, escrever bobagens e ouvir Arnaldo Antunes, Péricles, que na certa você ia achar "médio".
Abro a janela, leio um texto, choro de saudades... Que bom que o tempo passa e a gente se reinventa.
Meu cachorro me lambia a boca e tinha gente que morria de nojo. Que vontade de beijar de novo meu bicho.

Edson Duarte disse...

Estando na Bahia, em Porto Alegre, em Floripa ou Sampa, é sempre bom inventar cotidianos, sei quem é Arnaldo, Péricles cantor não sei. Também tenho saudade e choro. Mas depois tudo se esvazia e entra noite adentro como entro-me em mim num sono sem fim. Este eco eu não previa, mas saiu como num susto. Deixo que ele exista, pois tudo qeu é vivo sempre volta. Não quero mais amarras na escrita, quero sentir-me livre para falar pelos cotovelos, sem nenhum senso de estética, sem nenhum apelo ao bom gosto. É assim minha vida. Como um texto sempre por se fazer. Findo assim este meu desabafo.